Segunda-feira, Janeiro 04, 2010
Começar o ano… quase…
Já lá estava há um mês. Na geleira. Andava com vontade. Já há algum tempo também. E hoje, que o jantar foi frango no churrasco, tirei a garrafa de Asti Gancia.
Uma combinação fantástica. E não há como beber champanhe sem motivo aparente.
Quinta-feira, Dezembro 31, 2009
O que nos resta…
Amo-te, diz ele. Ela responde-lhe E depois?
Ainda não tinha visto este filme. Gostei. Afinal, é a vida que nos pode ajudar a responder a questões que parecem muito difíceis.
Mas fiquei a pensar na resposta dela. E neste mundo que se vive dentro de um comboio em constante movimento, o que nos restará quando nem o amor é a solução?
E depois?
Domingo, Dezembro 20, 2009
Porque não foste?
Frio. Frio-ossos. Hoje, depois de teres estado mais um fim-de-semana noutro espaço chegaste a casa e quiseste falar comigo, P. Aquela tua voz triste deixou-me mais triste ainda. Perguntaste-me porque não tinha lá estado a ver o teatro. Respondi-te que estive o Sábado todo em reuniões na escola e que não me tinha sido possível ir ver-te. E nunca poderás imaginar, pequeno P. o que isso me custou. Talvez um dia, se leres este blog com outros olhos. Sabes, de alguma forma tenho procurado que faças as coisas que me apaixonam. O teatro. A fotografia. Desejos. Seres um bom aluno, um ser humano com qualidades que te façam apreciar a vida, que te saibam estimar e que um dia dês verdadeiramente valor a quem te ama, a quem te quer bem. Que saibas distinguir, com clareza (e como é difícil, por vezes fazê-lo), os caminhos que te podem levar ao sorriso e os que te levarão à tristeza. Por isso, fiquei tão feliz por saber que conseguirias fazer o teu primeiro curso de Expressão e Movimento. Acabaste por fazer de Ratinho, com apenas duas falas. E quando soube que não ia poder estar no dia da apresentação, doeu-me o coração, o mundo ficou um pouco mais escuro. Mas, sabes, pequeno P., na vida é preciso dar valor, acima de tudo (de tudo) ao processo que nos faz crescer. E ainda que eu não tenha estado e me tenhas perguntado, numa voz chorosa e triste porque não estive lá, de algum modo consegui que crescesses um pouco mais e que começasses a amar o teatro como eu amo. Não o percebes ainda mas chegará o momento. E espero que este teu pequeno papel tenho sido, apenas, o primeiro de muitos e muitos. Porque como disse o RG, no teatro moves-te como peixe na água.
Sim, é verdade, não estive lá, P. Sei, hoje, que te apercebeste. Esteve lá quem te ama também. Vou ver-te no filme, com atenção, como se lá tivesse estado. E vou rir-me, talvez me caia uma lágrima.
Porque, acredita, no fundo sempre lá estive. Sempre.
Sexta-feira, Dezembro 18, 2009
Ἑλένη
Céu de ondas feito de barcos mil. Tróia é o destino. Na amurada os homens conversam. Vozes grossas. A Morte sorri na proa. Desejo lascivo.
Um homem chora. Ítaca.
…(des)viagem…
…arame sorridente…
Os meus dez minutos são sobre o Holocausto, stôr. Olho para o ecrã. Uma fotografia de crianças em uniforme-zebra, sorridentes (ironia) atrás de arames. Vou fazer este trabalho porque fiquei muito curiosa quando demos o texto sobre o campo de concentração de Dachau e precisava de saber porque é que os nazis fizeram aquilo. Olha para a N. A turma está em silêncio. A sala está numa semi-obscuridade. Um dia de chuva, janelas baixas, a luz apagada para se poder ver melhor. A N. começa a falar. Está a correr bem. Vou anotando alguns aspectos da apresentação oral. As imagens vão-se tornando cada vez mais violentas. Três minutos. Um silêncio. Levanto a cabeça da folha. A fotografia é agora a de um conjunto de mulheres, nuas, em fila indiana, com pequenos filhos nos braços. A caminho das câmaras de gás. Na fotografia seguinte, as câmaras de gás. A N. olha a fotografia. Recomeça o seu discurso. Confuso. Procura as palavras. Pára. Desculpe, stôr, não consigo mais. E começa um choro revoltado, inconsolável, triste. Isto é muito forte, stôr. Pergunto-lhe o motivo. Porque vi imagens que nunca tinha visto na minha vida. Sai para o seu lugar. Três colegas abraçam-na carinhosamente. Fico com uma vontade enorme de a ir abraçar, de lhe dizer que tem razão. Não o faço. Fico sentado a dizer que aquilo que ela disse foi muito importante. No fim da aula vem ter comigo e pergunta-me se o que aconteceu a vai prejudicar na nota. Respondo-lhe, apenas, que ela mostrou, ali, dos valores mais bonitos do ser humano e que não há aulas, trabalhos, notas, alunos, professores, escolas que sejam mais importantes que isso. Desejo-lhe um Bom Natal. Ela sai dali com os olhos vermelhos.
Sim, N. não sabes que eu também chorei em casa quando preparava o texto sobre Dachau. Porque o ser humano é uma besta. Porque nem sempre somos capazes de controlar o que há de mais execrável em todos nós. Sim, também chorei. Talvez nunca o saibas. E nesta escola em que muitas vezes tudo parece feito de animalidade, trouxeste-me um pouco do sol que tanto faltou a quem morreu naqueles campos. E nunca deveríamos crescer por termos de nos deparar com isto.
Quinta-feira, Dezembro 10, 2009
Rotinas
16:56.
Está frio. Apetece-me enrolar-me no meu cachecol, pegar na máquina e ir ver o rio. O mar. Apetece-me o voo das gaivotas e a saída da barra. Deixar-me levar no rasto dos barcos que cruzam continentes e se deliciam em beijá-los. A Ode. Mas pela minha janela vejo uma tarde que se vai deitando, calmamente. E sem que me aperceba, daqui a pouco acorda a noite. Em cima desta mesa, folhas cheias de pensamentos, de outros estares. Outro contexto. É sobre elas que a minha caneta verde se vai intrometendo. Procuro fazê-lo de forma discreta mas nem sempre é possível. Ao lado, livros, manuais que começam a amontoar-se. Olho para eles e percebo a urgência em arrumá-los. Oiço Enigma, hoje. MCMXC a.D. Tantas viagens. O prazer sussurrante de uma mulher, as vozes de monges-paraíso, um cavalo que corre por um prado nosso desconhecido, água que corre por um qualquer ribeiro, sons de terras distantes para onde ia agora. Foi um dos primeiros que comprei. Dava por mim a olhar para as luzes dançantes do equalizador horas a fio, sem me aperceber que poucas horas depois teria que me levantar para ir para a faculdade. E hoje, tantos anos depois, continuo a ouvi-lo e a ver, com o mesmo olhar mágico, as pequenas luzes que sobem e descem ao ritmo de notas vindas de tantos lugares. E na impossibilidade de dormir sobre uma tranquilidade que teima em chegar, flutuo, de olhos fechados, neste silêncio.
Nesta tarde que adormece aos poucos.
Sexta-feira, Dezembro 04, 2009
Máscara-Quietação
Trazes o teu rosto tão pesado, hoje, disse-me… Sabes, o dia não correu muito bem. Fiquei a escassos milímetros de bater num carro por causa de alguém que atravessou uma passagem para peões quase como num mergulho e quando estava a estacionar o carro, numa manobra infantil e nada característica fiz uma mossa enorme na porta do carro. Fica-se a pensar no tanto que se procura poupar e depois…
Revolta. Um sentimento enorme de injustiça invade-me o corpo. Queima-me por dentro. Mergulho num mar imenso, escuro, sem saídas. Há coisas bem piores, dizem-me. As doenças. Por momentos antipatizo com estes comentários. Sim, eu sei. Há pessoas que morrem porque o cancro as ataca. Há pessoas que morrem porque não têm que comer. Há pessoas que morrem por causa de uma simples constipação. Mas eu não tenho culpa disso. Egoísmo? Não, decididamente não. Apenas o direito de ter os meus problemas, de me sentir triste, angustiado, completamente gasto por dentro. A vontade humana de me estar nas tintas para o buraco do ozono, para a morte das árvores, para o ambiente, para uma sociedade hipócrita que critica o que ela própria criou. Monstro-sentimento de insensibilidade. Nestes dias cinzentos de chuva-cimento, preocupam-me as pessoas-mossas que quero ajudar e não consigo. Uma sensação esmagadora de impotência paralisa-me. Fico, só, assim, a olhar para a lividez de uma parede-torno, fria, do tamanho do mundo.
E hoje, o teatro. Uma nova estreia. A fuga. Ou mais do que nunca, o encontro de mim em mim. Nada mais existe do que um palco. Palco-Outro. E nele paira, sobre mim-outro, aquilo que quero transparente, diáfano.
E a escuridão transforma-se num bater de asas de Anjos em noite tranquila de Primavera.
Quarta-feira, Novembro 25, 2009
Janela-choro
Frio. Um dia feito de chuva cinzenta e gelada. Nas janelas do meu quarto escorrem as mágoas de deuses perdidos e despojados. O Nada é o que se vive.
E chove. Chove. Chove.
Também dentro de mim.
… a plantar um canário…
Ó professor, há-de-me trazer a fotografia, está bem? Sim, sim, claro que sim…
Uma aula. Alunos que me ouvem. Já há muito que não o sentia. Um texto. Sobre uma criança que tinha o hábito de semear tudo. Caroços de laranja, pétalas de cravo, olhinhos amarelos de malmequer. E mais, muito mais. E fazia-o debaixo de uma nespereira. Porque gostava de os ver crescer, ainda que por vezes não acontecesse nada. Um dia, morreu-lhe o canário. Não percebia muito bem o que lhe tinha acontecido mas algo de frio, silencioso e inesperado tinha acontecido…
Sim, sim, claro, desculpe não o ter feito ainda. Mas não está esquecido…
E então, plantou o canário. Porque esperava que crescesse. Primeiro o bico. Depois, os olhinhos. A seguir, um voo rápido e uma canção. Eles, que me ouvem, vão sorrindo perante este desejo desta criança. Uns olham-me seriamente, parece, com gosto (gosto deste olhar). Porque temos que ver que as crianças acreditam nisto. A facilidade com que se morre e rapidamente se volta a viver é-lhes característico. Concordam comigo. Pois é stôr… pois… morreu o sr. Zé… E além disso… E paro… Quem?... O sr. Zé, stôr, aquele senhor que andava aí… Não sabia?...
Fico calado por momentos. Apercebo-me dos olhares estranhos que me lançam e do silêncio súbito na sala de aula. Sim, claro que sei quem é… Tinha uma fotografia par lhe dar do último almoço aqui na escola… Forma-se, muito lentamente, um nó na minha garganta. Tenho que continuar a aula. Mas há uma nova voz, naquele espaço, a dizer-me depois traz-me a fotografia, está bem, professor.
Teria sessenta e tantos anos. Dizia que se calhar se ia embora. Que os miúdos não o respeitavam. Mas ele procurava sempre falar com eles ao coração antes de se dirigir à Direcção. Apertava-lhe sempre a mão quando passava por ele. Tinha um rosto simpático. Só hoje me apercebi do motivo por que tinha a voz tão grossa. Só hoje. E a sua presença, naqueles corredores exteriores, fizesse sol ou chuva era, de alguma forma, um conforto. Porque havia mais alguém a tomar conta daqueles miúdos e a ajudar a escola a ser ainda melhor.
Não. A fotografia não está esquecida...
A quem a vou dar agora? A quem?
Terça-feira, Novembro 24, 2009
O senhor das castanhas
Sim, é verdade, já me tinha questionado sobre o senhor das castanhas. Todos os anos, por esta altura, quando o frio começa a sorrir, depois de tanto calor, há um fumo que invade as noites. Um fumo com cheiro a castanhas, a meias grossas calçadas nas noites mais frias de Inverno. Sempre ali perto das escadas, com chuva ou sem, lá está ele. E é o sabor quente das castanhas que levo para casa. São quentes as mãos que chegam a casa. E este ano, por este altura, vi, subitamente, aquele espaço invadido por outras pessoas. Mas não era o senhor das castanhas. E fiquei a pensar. Nem sei o nome do senhor das castanhas. Conheço-lhe a simpatia, a vontade em atender bem quem por ali passa. Em dar as melhores castanhas a toda a gente. E apercebo-me da importância que determinadas pessoas vão tendo na nossa vida sem que dêmos por isso. Pensa-se logo no pior, na inevitabilidade da morte-merda. E depois entra-nos, no coração, as saudades-castanha. E a angústia.
Hoje soube, afinal, que o senhor das castanhas se tinha reformado. E a observar o fumo que ia iluminando a noite, aquele com sabor a castanhas, acabei por sorrir. Por saber que estava tudo bem.
Uma boa reforma, então, senhor das castanhas. E apareça de vez em quando.
Segunda-feira, Novembro 23, 2009
Fusível-morte
Vou observando as caixas que tenho à minha frente. GPS de diversos modelos, rádios, dvd portáteis para colocar nos bancos. Só o sol me conforta neste dia. Nestes últimos três meses mudei as lâmpadas do meu carro mais do que os anos em que já o tenho. E neste fim-de-semana, tudo se complicou. Consigo solucionar um dos problemas mas logo outro surge, mais grave. Vou pensando que também na vida é assim, por vezes. Resolve-se um problema e logo outro aparece, mais grave, a sorrir descaradamente perante a pequena vitória, aparentemente, obtida na solução de um outro. E aquilo que é um pequeno problema torna-se um peso enorme nos ombros, que nos faz andar colados ao chão.
Sim, este pensamento vai-me remoendo por dentro, lentamente. Como uma dor de dentes que não sendo forte nos não permite dormir, apesar dos medicamentos que já se tenham tomado. O mecânico chama-me e explica-me o problema. Mas logo refere outro. Fico a pensar, agora, neste outro que também me andava a incomodar. Passa pela mudança de um filtro e do óleo. Acedo. Apercebo-me da liberdade que o meu carro me oferece e da urgência em ter que o fazer. Tem sido um amigo e estes têm que ser tratados como tal. Volto a sentar-me. O sol procura abraçar-me de novo, neste dia em que se vai sentindo o frio, talvez até mais interior, difícil de cobrir.
No bolso do meu polar vibra o meu telemóvel. Retiro-o. Olho o visor. Abro a mensagem. Nesta altura, vejo o meu carro sair, conduzido pelo mecânico e adivinho a necessidade de fazer circular pelo motor o novo óleo. De novo a mensagem.
… o V. faleceu esta madrugada…
E fico, simplesmente a olhar para o visor. Cancro. Adivinhava-se, mais cedo ou mais tarde. Não tinha confiança com ele. Mas já tínhamos jantado todos numa mesa. E o facto de ser amigo de quem me enviou a mensagem provoca um efeito estranho. E neste dia em que observo caixas de GPS, rádios e o sol me procura confortar, tudo se torna tão estupidamente irónico. O mecânico volta a entrar e chama-me a atenção para os pneus, para algumas válvulas velhas debaixo do carro. Sim, tudo envelhece, tudo estupidamente morre. E saio dali, a reconhecer o som do meu carro, que já há algum tempo estranhava, a querer sorrir perante isso e a não conseguir. Porque há momentos na vida em que um fusível se torna mais importante que o facto mais evidente da vida. E esse é, como já tantas vezes o disse, neste palco, uma merda.
Sábado, Novembro 21, 2009
Pequenos prazeres-vida…
.
.
.
.
.
.
… atravessar a ponte a ouvir “Mother” dos James…
… sentir o diálogo de uma máquina fotográfica com a dança…
… ser criança, de novo, com a leitura de histórias infantis…
… fingir-me salteador e físico…
.
.
.
.
.
… atravessar a ponte a ouvir “Mother” dos James…
… sentir o diálogo de uma máquina fotográfica com a dança…
… ser criança, de novo, com a leitura de histórias infantis…
… fingir-me salteador e físico…
Terça-feira, Novembro 17, 2009
Terça-feira, Novembro 10, 2009
…o que nos resta.
Porque escrevemos? Oh, porque gostamos. Vá lá, são capazes de melhor. Para desabafar. Comunicar. Sim…? Para dar opiniões. Para recordar (responde, baixinho, de forma tímida). Repito. Devagar. Para recordar…
Olho o texto sobre Dachau. Um campo de concentração. Após uma visita de Vergílio Ferreira. Vejam as fotos. Um miúdo levanta os braços perante o gesto ameaçador de um alemão, que lhe aponta uma espingarda. Um judeu a caminho da câmara de gaz, enquanto outros o acompanham ao som de instrumentos musicais…
… (a morte e a música…)…
Esta, na libertação deste mesmo campo. Olhem os rostos…
Cresce o silêncio. Pesado, agora.
(Porque escrevemos…?)
E temos os autocarros. E temos o prato com comida à frente e a escola e as roupas e os computadores e a televisão e…
(Anne Frank observa o grande castanheiro, em silêncio)
Escrever é uma seca, dizem vocês. Dá trabalho. Pois dá. Hoje sabemos quem foi esta miúda. Era mais nova do que vocês. E temos o diário.
(Porque escrevemos?...)
Para recordar. A memória.
(Porque há momentos em que é a única coisa que nos resta…)
Domingo, Novembro 08, 2009
Olho o céu.
Um cometa.
…ou o encontro casual de dois mundos-sós, num bar-constelação, onde se bebem copos de galáxias coloridas.
Terça-feira, Novembro 03, 2009
Domingo, Novembro 01, 2009
Chama-Criança
(Ao pequeno P... e não só)
Subo, com alguma dificuldade, a pequena pedra escorregadia, debaixo da janela. Limpo a neve que tapa uma das janelas com a minha luva e espreito. Já há tanto que o desejava fazer. Aos poucos vou-me apercebendo do que lá está. Imaginava uma sala pequena e esta, afinal, é tão pequena. Sentado, um pouco de lado, lá está ele. Tem os pés em cima de um pequeno banco. As meias que calça são de lã grossa, brancas e vermelhas. Parecem quase umas botas. Em frente, o fogo de uma pequena lareira crepita graciosamente ao som de uma música que vai surgindo por trás daquela figura, que se recosta com vontade (com muita vontade, diria mesmo!). Apercebo-me, então, que a sua cabeça, de longos cabelos-neve baloiça suavemente, como se se deixasse simplesmente ir por uma brisa invisível que atravessasse aquele pequeno espaço cheio de madeira-cheiro. O banquinho, ao seu lado, tem um copo (será de leite?) meio vazio e que lhe denuncia o gosto por pequenos prazeres, agora convertidos em pequenas migalhas, rapidamente bicadas por um pequeno pássaro estranho que vai esvoaçando por ali mas sempre com aquele pequeno prato em vista. Escorrego, por momentos e sinto-o a olhar, desconfiado, para a janela. Penso na hipótese de fugir dali, rapidamente, mas aguardo uns segundos. Volto a subir a (agora) perigosa pequena pedra e espreito, a medo. Terei ouvido uma abafada voz grossa a rir, como se de uma folha de Outono se tratasse? Limpo, de novo, a janela. Espreito de novo. O brilho de um instrumento musical, ao seu lado, faz-me olhar mais atentamente. As chamas da lareira contam anedotas entre si e riem na sua superfície dourada. Sim, é verdade, um saxofone. Nunca imaginei que ele o tocasse. Surge, então, a sua mão, que vai acompanhando esta voz quente que canta a história de um anjo, Gabriel, que voa e anuncia algo de muito bonito. É nas notas choradas pelo saxofone que noto mais este abraço dedilhado e apaixonado (tanto…). E a voz quente fá-lo parar, assim, no ar, como se estivesse à espera de um novo beijo. Com uma leveza-memória.
A neve cai, agora, fortemente. Fustiga-me. Queria tanto continuar ali, a vê-lo, na proeminência da sua alegre barriga, entre listas lidas e caídas no chão, outras por ler e capas de velhos discos tocados numa estranha e secular grafonola. Estou enregelado. Dou um pequeno salto e caminho, encolhido, para o portão de madeira que abri, com medo. E oiço, então, a gargalhada sonora e tão conhecida. Juntam-se-lhe o som de pequenos guizos e de um espirro estranho, por trás da casa. Há um brilho vermelho, súbito, como se da luz de um distraído cometa se tratasse, fugido à mãe que chama por ele. E caminho, agora, mais depressa, beijado por flocos de neve, neste caminho-lençol, em direcção a casa.
Sim, está quase. Para quem acredita. Para quem não acredita. Para quem gosta de dançar abraçado a uma pequena chama irrequieta. Daquelas que aquecem por dentro.
Quinta-feira, Outubro 29, 2009
Hoje…
…emocionei-me ao ver o pequeno P a escrever (a escrever mesmo!) dois números, o um e o dois e a desenhá-los, por cima. Tinha um lápis azul na mão pequenina enquanto os outros lhe sorriam num largo copo vermelho. E estive a olhar para o livro que o vai ajudando a descobrir este mundo, agora assolado por uma gripe estúpida e assustadora. E enquanto olhava para ele, a A perguntou-lhe se o pequeno P já me tinha dito onde nascia o Guadiana e onde desaguava. Pois nasce em Espanha e desagua na rua de Santo António. Seguiu-se uma gargalhada, com os olhos do pequeno P a tentarem perceber o que se passava. Já no outro dia tinha dito que o Presidente da República era o Dr. Cavaco Silva e o Primeiro-Ministro o Barack Obama. Gargalhada. E depois dos números escreveu o nome completo, sem olhar para o que quer que fosse. Com as letras todas e ainda a respirarem em tamanhos diferentes. Depois, a cama passou a ser uma pista enorme de obstáculos onde um tractor vermelho se passeou para um lado e para outro, como se tivesse acabado de beber dois litros de uma garrafa de um velho uísque. As risadas aumentaram quando transformámos o tractor em balão de ar quente e o tecto passou quase a ser o limite, sempre evitando o resmungão do candeeiro, que se queria intrometer na brincadeira. E tornámos o espaço pequeno num campo de futebol, por onde se passeou a irrequieta bola laranja. Depois um abraço apertado, quente, silencioso, a fazer-me lembrar opções de vida, visitantes tristemente transparentes. Estava na altura de descansar. E saí daquele mundo, tão cheio de vida e de sorrisos para um de estradas com carros, com centros comerciais e prédios cinzentos cheios de assinaturas violentas.
O Sorriso-Dia.
Quarta-feira, Outubro 28, 2009
Terça-feira, Outubro 27, 2009
Singularidades
… a tarde, que vai adormecendo…
… as ovelhas que balem, enquanto se divertem com manjares terrenos, ao som de badalos musicais…
… eles, que enterrados na leitura, viajam por mundos desconhecidos e contemplam as frases que mais os surpreendem…
… eu, que evito rir a bandeiras despregadas com a leitura do livro de Mia Couto para não os atrapalhar e eu não me envergonhar…
… as bonitas palavras de Eugénio de Andrade na sala…
… a doçura oriental de Suzuki…
… o cavalo que tranquilamente pasta num quadro de céu impressionista pintado a rosa e azul-bebé…
… o silêncio no meu carro, que apetece…
… a leveza da estrada que me leva para casa…
… o fumegar da sopa que se encontra na mesa…
… o olhar…
Quinta-feira, Outubro 22, 2009
Então... não querem lá ver (parte II)?
... estava eu a comer um pêssego, com tanta vontade, que achei que o caroço também era fruta?
Pois claro, parti um bocado do dente!
(já marquei consulta para o dentista)
Pois claro, parti um bocado do dente!
(já marquei consulta para o dentista)
Então…não querem lá ver?
...estava eu a trabalhar que nem um louco, na SP, olho para um dos dois monitores dos computadores da dita Sala, este apaga-se e aparece uma mensagem a dizer “Monitor going to sleep”?
“Monitor going to sleep”… ?... “Monitor… going…to…sleep”?
Pois claro, dei-lhe logo um estaladão!
“Monitor going to sleep”… ?... “Monitor… going…to…sleep”?
Pois claro, dei-lhe logo um estaladão!
Terça-feira, Outubro 20, 2009
Dois versos, uma batuta
São quase três horas. Faltam dois minutos. Vou resolvendo uma ficha sobre variação e normalização linguística a propósito de textos do domínio transaccional, a carta formal e a informal. Conceitos-distância. O manual, ao lado, apresenta uma página informativa em dois tons de azul, que contrastam com o preto e branco do Caderno do Aluno. E entre eles, o vermelho confortável da pequena capa que acolhe o meu MP3. À minha frente, os colegas vão preenchendo grelhas, Livros de Ponto, lendo e relendo materiais a utilizar nas salas de aula. E de súbito, tudo isto se torna irreal.
Fecho os olhos e volto a viajar na batuta que vai comandando os instrumentos do “Requiem”. Mozart, de novo. De novo, vezes sem conta. Como amo estes sons. Começa de uma forma tão tranquila, tão simples. Depois, o grito forte de todos os instrumentos. Os Anjos descem à Terra e transformam-na num palco impressionante de sentidos. Num delírio de sentidos. Vejo os lábios de quem conversa à minha frente e não percebo nada. Nem tento sequer fazê-lo. Deixo-me ir só neste choro inconsolável de vozes que querem o mundo dentro de si, que anseiam por mil vivências num só segundo. Como se o peito quisesse, simplesmente, explodir. É tão bonito tudo isto. Como é possível fazer música assim? Como é possível viver a música assim? Como é possível ser-se tão grande num mundo tão cheio de interesses cinzentos, de egoísmo e hipocrisia?
Fecho os olhos e volto a viajar na batuta que vai comandando os instrumentos do “Requiem”. Mozart, de novo. De novo, vezes sem conta. Como amo estes sons. Começa de uma forma tão tranquila, tão simples. Depois, o grito forte de todos os instrumentos. Os Anjos descem à Terra e transformam-na num palco impressionante de sentidos. Num delírio de sentidos. Vejo os lábios de quem conversa à minha frente e não percebo nada. Nem tento sequer fazê-lo. Deixo-me ir só neste choro inconsolável de vozes que querem o mundo dentro de si, que anseiam por mil vivências num só segundo. Como se o peito quisesse, simplesmente, explodir. É tão bonito tudo isto. Como é possível fazer música assim? Como é possível viver a música assim? Como é possível ser-se tão grande num mundo tão cheio de interesses cinzentos, de egoísmo e hipocrisia?
...“Rex Tremendae”...
Levam-me os Anjos! Deixam-me neste sôfrego rodopio feito de vozes-túmulo, de asas libertadoras. Apetece-me sair daqui, misturar-me com a chuva, deixar de Ser. Isto é tão bonito. E olho o manual e o Caderno do Aluno e as planificações e a sala onde estou e as malas, carteiras, paredes cheias de papéis indecifráveis. E nada disto faz sentido. Nada. E nesta procura, encontro, a dançar ao som deste respirar-mundo, dois versos. Apenas dois. Num fundo-mar.
“Amanheci nos teus olhos / doces ilhas perdidas”.
E deixo de respirar.
Segunda-feira, Outubro 19, 2009
Domingo, Outubro 18, 2009
… e aqui a sala.
Recordo.
Vozes. Gargalhadas. As piadas surgem como se fossem a extensão de uma qualquer parte do corpo. Dos corpos presentes à volta da mesa. Os olhares são cúmplices. Já não é preciso falar. As músicas novas que cada um de nós ia ouvindo. Pessoas que estão tão longe, momentos partilhados feitos de quentes (tão quentes) abraços. O prato das frutas a passar de mão em mão, por entre copos de vinho feito de seda vermelha, enquanto os pequenos pedaços de carne, coloridos, aguardavam o seu momento para mergulharem nesta piscina de ferro, quente. A pequena chama azul dançante. Depois, os desenhos feitos em papel rascunho. De novo as gargalhadas. A mímica, os filmes.
Hoje, um casal. Dois filhos. Um amigo feito de sentires mediterrânicos. Já há tanto tempo que não abria esta mesa.
…já há tanto tempo…
O embate de recordações entontece-me.
Espaços feitos de novas solidões. Os padrões medievais deste tapete que me olha segredam-me outras vidas. E olho este meu candeeiro, feito de pedaços de papel impregnado de folhas de várias formas, que me acompanha neste deambular nos tempos. Neste silêncio que respiro avidamente (talvez demasiado) só a voz acolhedora de GM é testemunha. “Songs of the Century”. Espreito a melancólica rua lá fora, banhada por esta luz amarelada. Passa um carro, de vez em quando, a caminho do seu sono-garagem. Olho os prédios adormecidos e um pouco rabujentos pelas poucas luzes que teimam em se manter vivas. Outras vidas.
Recordo o telefonema. Fico simplesmente a pensar nas coincidências da vida. Nas opções que se vão tomando que nos fazem rir (tanto) e chorar (a ponto de nos sentirmos vazios por dentro). Imagino os olhos brilhantes e grandes do pequeno P. Sorrio. Lamento a vida-futura sonhada. E deixo-me ir, agora, neste swing e vejo a nuvem onde outrora se dançou, primeiro de forma atabalhoada, depois, ao ritmo do Universo.
Voltei a acordar a mesa, hoje. E é a contemplá-la que esta luz-abraço me sussurra seres transparentes esvoaçantes.
E deixo-me ir nas cordas chorosas deste violino.
Segunda-feira, Outubro 12, 2009
Hoje...
... voltei a ter aquela sensação triste e angustiante que a vida não é mais do que um punhado de areia que queremos apanhar e que, simplesmente, nos escorrega por entre os dedos.
Sábado, Outubro 10, 2009
Quinta-feira, Outubro 08, 2009
(fuga)(cidades)
É de vermelho a cor de que se veste este ser metálico tricolor. Aguardo que me acene e me permita o meu destino em direcção a um palco de luto trajado. As pessoas vão cruzando as listas brancas e pretas. Recordo terras longínquas. Caminham com ar triste, cansado. A rapariga, de fones-solidão, procura fugir ao encosto de pessoas cujo horizonte é o de guarda-chuvas refilões e agastados. Olho para o lado. É tão singular o reflexo nas estradas molhadas. A vida das formas. Quase sorrio perante a forma esguia e ondulada do homem que caminha com ar pesado. Sou despertado por um relâmpago nervoso atrás de mim. Avanço. Dentro dos carros, observo o comodismo de vidas que adivinho. Olhares amargos. O encosto da cabeça ao ombro deixa imaginar conversas-o-que-é-o-jantar-o-trânsito-está-um-inferno.
E nesta estrada escorregadia há uma luz amarela que me hipnotiza. Os candeeiros, no seu gigantismo mudo, contemplam este formigueiro feito de metal, pedras e pessoas. A voz de Antony reforça a taciturnidade de todo este espaço. A impoderabilidade. Apetece-me abandonar este pequeno espaço-casa e caminhar de mão dada com a chuva. Ir, simplesmente. Mas estas notas feitas de barcos-mundo empurram-me suavemente. Sussurram-me memórias quentes.
Outro Palco. De novo.
Subscrever:
Mensagens (Atom)