Domingo, Novembro 08, 2009
Olho o céu.
Um cometa.
…ou o encontro casual de dois mundos-sós, num bar-constelação, onde se bebem copos de galáxias coloridas.
Terça-feira, Novembro 03, 2009
Domingo, Novembro 01, 2009
Chama-Criança
(Ao pequeno P... e não só)
Subo, com alguma dificuldade, a pequena pedra escorregadia, debaixo da janela. Limpo a neve que tapa uma das janelas com a minha luva e espreito. Já há tanto que o desejava fazer. Aos poucos vou-me apercebendo do que lá está. Imaginava uma sala pequena e esta, afinal, é tão pequena. Sentado, um pouco de lado, lá está ele. Tem os pés em cima de um pequeno banco. As meias que calça são de lã grossa, brancas e vermelhas. Parecem quase umas botas. Em frente, o fogo de uma pequena lareira crepita graciosamente ao som de uma música que vai surgindo por trás daquela figura, que se recosta com vontade (com muita vontade, diria mesmo!). Apercebo-me, então, que a sua cabeça, de longos cabelos-neve baloiça suavemente, como se se deixasse simplesmente ir por uma brisa invisível que atravessasse aquele pequeno espaço cheio de madeira-cheiro. O banquinho, ao seu lado, tem um copo (será de leite?) meio vazio e que lhe denuncia o gosto por pequenos prazeres, agora convertidos em pequenas migalhas, rapidamente bicadas por um pequeno pássaro estranho que vai esvoaçando por ali mas sempre com aquele pequeno prato em vista. Escorrego, por momentos e sinto-o a olhar, desconfiado, para a janela. Penso na hipótese de fugir dali, rapidamente, mas aguardo uns segundos. Volto a subir a (agora) perigosa pequena pedra e espreito, a medo. Terei ouvido uma abafada voz grossa a rir, como se de uma folha de Outono se tratasse? Limpo, de novo, a janela. Espreito de novo. O brilho de um instrumento musical, ao seu lado, faz-me olhar mais atentamente. As chamas da lareira contam anedotas entre si e riem na sua superfície dourada. Sim, é verdade, um saxofone. Nunca imaginei que ele o tocasse. Surge, então, a sua mão, que vai acompanhando esta voz quente que canta a história de um anjo, Gabriel, que voa e anuncia algo de muito bonito. É nas notas choradas pelo saxofone que noto mais este abraço dedilhado e apaixonado (tanto…). E a voz quente fá-lo parar, assim, no ar, como se estivesse à espera de um novo beijo. Com uma leveza-memória.
A neve cai, agora, fortemente. Fustiga-me. Queria tanto continuar ali, a vê-lo, na proeminência da sua alegre barriga, entre listas lidas e caídas no chão, outras por ler e capas de velhos discos tocados numa estranha e secular grafonola. Estou enregelado. Dou um pequeno salto e caminho, encolhido, para o portão de madeira que abri, com medo. E oiço, então, a gargalhada sonora e tão conhecida. Juntam-se-lhe o som de pequenos guizos e de um espirro estranho, por trás da casa. Há um brilho vermelho, súbito, como se da luz de um distraído cometa se tratasse, fugido à mãe que chama por ele. E caminho, agora, mais depressa, beijado por flocos de neve, neste caminho-lençol, em direcção a casa.
Sim, está quase. Para quem acredita. Para quem não acredita. Para quem gosta de dançar abraçado a uma pequena chama irrequieta. Daquelas que aquecem por dentro.
Quinta-feira, Outubro 29, 2009
Hoje…
…emocionei-me ao ver o pequeno P a escrever (a escrever mesmo!) dois números, o um e o dois e a desenhá-los, por cima. Tinha um lápis azul na mão pequenina enquanto os outros lhe sorriam num largo copo vermelho. E estive a olhar para o livro que o vai ajudando a descobrir este mundo, agora assolado por uma gripe estúpida e assustadora. E enquanto olhava para ele, a A perguntou-lhe se o pequeno P já me tinha dito onde nascia o Guadiana e onde desaguava. Pois nasce em Espanha e desagua na rua de Santo António. Seguiu-se uma gargalhada, com os olhos do pequeno P a tentarem perceber o que se passava. Já no outro dia tinha dito que o Presidente da República era o Dr. Cavaco Silva e o Primeiro-Ministro o Barack Obama. Gargalhada. E depois dos números escreveu o nome completo, sem olhar para o que quer que fosse. Com as letras todas e ainda a respirarem em tamanhos diferentes. Depois, a cama passou a ser uma pista enorme de obstáculos onde um tractor vermelho se passeou para um lado e para outro, como se tivesse acabado de beber dois litros de uma garrafa de um velho uísque. As risadas aumentaram quando transformámos o tractor em balão de ar quente e o tecto passou quase a ser o limite, sempre evitando o resmungão do candeeiro, que se queria intrometer na brincadeira. E tornámos o espaço pequeno num campo de futebol, por onde se passeou a irrequieta bola laranja. Depois um abraço apertado, quente, silencioso, a fazer-me lembrar opções de vida, visitantes tristemente transparentes. Estava na altura de descansar. E saí daquele mundo, tão cheio de vida e de sorrisos para um de estradas com carros, com centros comerciais e prédios cinzentos cheios de assinaturas violentas.
O Sorriso-Dia.
Quarta-feira, Outubro 28, 2009
Terça-feira, Outubro 27, 2009
Singularidades
… a tarde, que vai adormecendo…
… as ovelhas que balem, enquanto se divertem com manjares terrenos, ao som de badalos musicais…
… eles, que enterrados na leitura, viajam por mundos desconhecidos e contemplam as frases que mais os surpreendem…
… eu, que evito rir a bandeiras despregadas com a leitura do livro de Mia Couto para não os atrapalhar e eu não me envergonhar…
… as bonitas palavras de Eugénio de Andrade na sala…
… a doçura oriental de Suzuki…
… o cavalo que tranquilamente pasta num quadro de céu impressionista pintado a rosa e azul-bebé…
… o silêncio no meu carro, que apetece…
… a leveza da estrada que me leva para casa…
… o fumegar da sopa que se encontra na mesa…
… o olhar…
Quinta-feira, Outubro 22, 2009
Então... não querem lá ver (parte II)?
... estava eu a comer um pêssego, com tanta vontade, que achei que o caroço também era fruta?
Pois claro, parti um bocado do dente!
(já marquei consulta para o dentista)
Pois claro, parti um bocado do dente!
(já marquei consulta para o dentista)
Então…não querem lá ver?
...estava eu a trabalhar que nem um louco, na SP, olho para um dos dois monitores dos computadores da dita Sala, este apaga-se e aparece uma mensagem a dizer “Monitor going to sleep”?
“Monitor going to sleep”… ?... “Monitor… going…to…sleep”?
Pois claro, dei-lhe logo um estaladão!
“Monitor going to sleep”… ?... “Monitor… going…to…sleep”?
Pois claro, dei-lhe logo um estaladão!
Terça-feira, Outubro 20, 2009
Dois versos, uma batuta
São quase três horas. Faltam dois minutos. Vou resolvendo uma ficha sobre variação e normalização linguística a propósito de textos do domínio transaccional, a carta formal e a informal. Conceitos-distância. O manual, ao lado, apresenta uma página informativa em dois tons de azul, que contrastam com o preto e branco do Caderno do Aluno. E entre eles, o vermelho confortável da pequena capa que acolhe o meu MP3. À minha frente, os colegas vão preenchendo grelhas, Livros de Ponto, lendo e relendo materiais a utilizar nas salas de aula. E de súbito, tudo isto se torna irreal.
Fecho os olhos e volto a viajar na batuta que vai comandando os instrumentos do “Requiem”. Mozart, de novo. De novo, vezes sem conta. Como amo estes sons. Começa de uma forma tão tranquila, tão simples. Depois, o grito forte de todos os instrumentos. Os Anjos descem à Terra e transformam-na num palco impressionante de sentidos. Num delírio de sentidos. Vejo os lábios de quem conversa à minha frente e não percebo nada. Nem tento sequer fazê-lo. Deixo-me ir só neste choro inconsolável de vozes que querem o mundo dentro de si, que anseiam por mil vivências num só segundo. Como se o peito quisesse, simplesmente, explodir. É tão bonito tudo isto. Como é possível fazer música assim? Como é possível viver a música assim? Como é possível ser-se tão grande num mundo tão cheio de interesses cinzentos, de egoísmo e hipocrisia?
Fecho os olhos e volto a viajar na batuta que vai comandando os instrumentos do “Requiem”. Mozart, de novo. De novo, vezes sem conta. Como amo estes sons. Começa de uma forma tão tranquila, tão simples. Depois, o grito forte de todos os instrumentos. Os Anjos descem à Terra e transformam-na num palco impressionante de sentidos. Num delírio de sentidos. Vejo os lábios de quem conversa à minha frente e não percebo nada. Nem tento sequer fazê-lo. Deixo-me ir só neste choro inconsolável de vozes que querem o mundo dentro de si, que anseiam por mil vivências num só segundo. Como se o peito quisesse, simplesmente, explodir. É tão bonito tudo isto. Como é possível fazer música assim? Como é possível viver a música assim? Como é possível ser-se tão grande num mundo tão cheio de interesses cinzentos, de egoísmo e hipocrisia?
...“Rex Tremendae”...
Levam-me os Anjos! Deixam-me neste sôfrego rodopio feito de vozes-túmulo, de asas libertadoras. Apetece-me sair daqui, misturar-me com a chuva, deixar de Ser. Isto é tão bonito. E olho o manual e o Caderno do Aluno e as planificações e a sala onde estou e as malas, carteiras, paredes cheias de papéis indecifráveis. E nada disto faz sentido. Nada. E nesta procura, encontro, a dançar ao som deste respirar-mundo, dois versos. Apenas dois. Num fundo-mar.
“Amanheci nos teus olhos / doces ilhas perdidas”.
E deixo de respirar.
Segunda-feira, Outubro 19, 2009
Domingo, Outubro 18, 2009
… e aqui a sala.
Recordo.
Vozes. Gargalhadas. As piadas surgem como se fossem a extensão de uma qualquer parte do corpo. Dos corpos presentes à volta da mesa. Os olhares são cúmplices. Já não é preciso falar. As músicas novas que cada um de nós ia ouvindo. Pessoas que estão tão longe, momentos partilhados feitos de quentes (tão quentes) abraços. O prato das frutas a passar de mão em mão, por entre copos de vinho feito de seda vermelha, enquanto os pequenos pedaços de carne, coloridos, aguardavam o seu momento para mergulharem nesta piscina de ferro, quente. A pequena chama azul dançante. Depois, os desenhos feitos em papel rascunho. De novo as gargalhadas. A mímica, os filmes.
Hoje, um casal. Dois filhos. Um amigo feito de sentires mediterrânicos. Já há tanto tempo que não abria esta mesa.
…já há tanto tempo…
O embate de recordações entontece-me.
Espaços feitos de novas solidões. Os padrões medievais deste tapete que me olha segredam-me outras vidas. E olho este meu candeeiro, feito de pedaços de papel impregnado de folhas de várias formas, que me acompanha neste deambular nos tempos. Neste silêncio que respiro avidamente (talvez demasiado) só a voz acolhedora de GM é testemunha. “Songs of the Century”. Espreito a melancólica rua lá fora, banhada por esta luz amarelada. Passa um carro, de vez em quando, a caminho do seu sono-garagem. Olho os prédios adormecidos e um pouco rabujentos pelas poucas luzes que teimam em se manter vivas. Outras vidas.
Recordo o telefonema. Fico simplesmente a pensar nas coincidências da vida. Nas opções que se vão tomando que nos fazem rir (tanto) e chorar (a ponto de nos sentirmos vazios por dentro). Imagino os olhos brilhantes e grandes do pequeno P. Sorrio. Lamento a vida-futura sonhada. E deixo-me ir, agora, neste swing e vejo a nuvem onde outrora se dançou, primeiro de forma atabalhoada, depois, ao ritmo do Universo.
Voltei a acordar a mesa, hoje. E é a contemplá-la que esta luz-abraço me sussurra seres transparentes esvoaçantes.
E deixo-me ir nas cordas chorosas deste violino.
Segunda-feira, Outubro 12, 2009
Hoje...
... voltei a ter aquela sensação triste e angustiante que a vida não é mais do que um punhado de areia que queremos apanhar e que, simplesmente, nos escorrega por entre os dedos.
Sábado, Outubro 10, 2009
Quinta-feira, Outubro 08, 2009
(fuga)(cidades)
É de vermelho a cor de que se veste este ser metálico tricolor. Aguardo que me acene e me permita o meu destino em direcção a um palco de luto trajado. As pessoas vão cruzando as listas brancas e pretas. Recordo terras longínquas. Caminham com ar triste, cansado. A rapariga, de fones-solidão, procura fugir ao encosto de pessoas cujo horizonte é o de guarda-chuvas refilões e agastados. Olho para o lado. É tão singular o reflexo nas estradas molhadas. A vida das formas. Quase sorrio perante a forma esguia e ondulada do homem que caminha com ar pesado. Sou despertado por um relâmpago nervoso atrás de mim. Avanço. Dentro dos carros, observo o comodismo de vidas que adivinho. Olhares amargos. O encosto da cabeça ao ombro deixa imaginar conversas-o-que-é-o-jantar-o-trânsito-está-um-inferno.
E nesta estrada escorregadia há uma luz amarela que me hipnotiza. Os candeeiros, no seu gigantismo mudo, contemplam este formigueiro feito de metal, pedras e pessoas. A voz de Antony reforça a taciturnidade de todo este espaço. A impoderabilidade. Apetece-me abandonar este pequeno espaço-casa e caminhar de mão dada com a chuva. Ir, simplesmente. Mas estas notas feitas de barcos-mundo empurram-me suavemente. Sussurram-me memórias quentes.
Outro Palco. De novo.
Terça-feira, Outubro 06, 2009
Casaco-Vida
(Às canções que se tornam Anjos-da-Guarda)
Ever since I saw you / I want to hold you / Like you were the one / It sees right through me
Um céu cinzento. A chuva. As escovas abrem caminho neste mar feito de alcatrão. O comboio que cumpre o seu destino. Sinto-o neste pequeno túnel que atravesso agora.
A bullet it comes and takes me / and I love you I love you / I want you but I fear you
Silêncio. Só o suave toque do vento no alto capim.
Who are u? / Who are u? / Ever since I saw / I want to hold you / like you were the one
Caminho. Procuro o chão. Sinto-a. Oiço-a na terra. Vem devagar. Ao meu encontro. Traz o sol no olhar, brilhante.
…cego…
For how long / How strong do I still have to be? / how come you mean so much to me?
Abro a janela. Deixo-me invadir pelas grossas gotas de chuva. As luzes traseiras dos carros, vermelhas, abrandam-me neste destino feito de seres-outros. De novo, sim. Em breve.
And I love you I love you / I want you but I fear you
Aproximas-te. A respiração. Tocas-me. É tão macio o teu pêlo. Negro. E não te vejo. A suavidade do teu corpo. Cercas-me. Páras. Torno-me, subitamente, tu. As minhas mãos-patas.
(quase chorei quando vos vi, assim…)
A nudez-trigo desta extensa savana. E canto. E fico.
(deixa-me ir)
For how long / How strong do I still have to be?
A chuva. O nevoeiro. A Estrada que se agita.
Who are u? / Who are u?
O distante som do comboio. O barco-viola. A distância do teu olhar-sol. Cada vez maior. Páras, de novo, e olhas-me. Sinto-te. A terra.
I sing this song for you / just to see you smile
Fecho o vidro. De novo a claridade naquela nuvem (vêem?). As mãos-ramos do volante. E tu, estática, longe, a olhares(me). É tão pesada, agora, a chuva que sinto nos meus olhos.
No corpo? A leveza.
Segunda-feira, Outubro 05, 2009
Será…?
Abro os olhos. Apercebo-me de uma cor diferente, lá fora. Mais escura, mais cinzenta. Levanto-me, abro o estore. Sou, de imediato, despertado por um vento mais frio e, é verdade, outonal. Será que é desta? O fumo das castanhas assadas, o cheiro, os pacotes em funil feitos de listas antigas de telefone, o senhor das castanhas, sempre o mesmo, no mesmo local...?
É uma dúzia, por favor. Levo-as, bem fechadas, para casa. Encho um pequeno cálice. Saboreio o Outono, deixando que os dedos mergulhem nas castanhas-cachecol.
E cai uma folha.
É uma dúzia, por favor. Levo-as, bem fechadas, para casa. Encho um pequeno cálice. Saboreio o Outono, deixando que os dedos mergulhem nas castanhas-cachecol.
E cai uma folha.
Domingo, Outubro 04, 2009
Sábado, Outubro 03, 2009
Casa-almofada
É um calor quente, abafado, pegajoso o deste dia. Um artigo fora de moda. Um motivo de escárnio. Procuro as sombras dos prédios nos passeios sujos. Choram as paredes de tants feridas feitas por braços-spray. Só um pensamento-água me leva neste caminhar lento.
A minha casa. Há uma penumbra que me acolhe, me conforta. Como as almofadas. Quando encostamos a cabeça e lhe damos aquele último pequeno jeito, que nos leva para um mundo de sonhos
…nem sempre…
Abro as janelas de vidro e logo uma corrente de ar sorridente se passeia dengosamente por aqui. Esqueço-me do calor. Esqueço-me da sujidade das ruas impregnadas pelo egoísmo e estupidez humanas. Deixo de ouvir o lamento das paredes. O cheiro de outras terras esfumaça aqui e leva-me para outros mundos-útero.
A minha casa. A minha casa-almofada.
Esqueço-me.
Sexta-feira, Outubro 02, 2009
Final de tarde-piu-piu
(A todos os meninos e meninas que ainda o são)
Não sei quantos são. Muitas dezenas, de certeza. Vejo-os a saltarem de um lado para o outro numa velocidade impressionante. Trocam, entre si, chilreios de outras viagens, namoros esvoaçantes, jogos aéreos do não-me-apanhas-não-me-apanhas. Oiço alguns deles, nesta árvore-bar, a comentarem a sensualidade daquela pardala que
…nem imaginas, põe-me as asas a tremer, pá…
a combinarem a ida ao ninhotógrafo para verem o filme, que está sempre esgotado, com o famoso actor Michael Birdy, a comentarem, com tristeza, a derrocada do ninho-loft,
...e que foi tão caro,vê lá que tiveram que ir buscar pauzinhos às florestas da Amazónia, não me digas, piu-piu-piu…
por causa de uma rajada de vento que já nem os mais velhos se recordavam quando a tinham sentido nas suas asas-bengalas. Outros, naqueles ramos mais acima, tagarelam negócios mas pelo ar bicudo como o fazem não devem ser muito bons. A forma tímida, daqueles dois, como colocam as suas asitas, deixa adivinhar um romance quente ao som da famosa cantora Mary Singing The Bird, já nos seus setenta anos mas com um chilreio de perder o bico.
Os meus fins de tarde. Deixo-me simplesmente estar, com a dança desta suave brisa, com eles, que devem ser dezenas, nesta árvore que quer tocar o céu e que se entretém a ser testemunha destes pequenos seres que vão construindo, com pequenos pauzinhos, o seu dia-a-dia esvoaçante.
E de manhã, quando procuro combater a resistência dos olhos que querem a noite tranquila, são eles o primeiro som que saboreio, como se adivinhassem, também, a timidez de um sol ainda cansado de danças lunares.
Que bom deve ser ser-se pássaro.
Sexta-feira, Setembro 25, 2009
Poemar Rodin
EsperaDeito-me tarde
Espero por uma espécie de silêncio
Que nunca chega cedo
Espero a atenção a concentração da hora tardia
Ardente e nua
É então que os espelhos acendem o seu segundo brilho
É então que se vê o desenho do vazio
É então que se vê subitamente
A nossa própria mão poisada sobre a mesa
É então que se vê o passar do silêncio
Navegação antiquíssima e solene.
Sophia de Mello Breyner Andresen
des-armadura
Tem nome de mulher. O apelido é uma especiaria quente. Traz na forma como caminha uma fresca e suave brisa. Envolvente. Os sons que nos tocam são os de outras terras, de instrumentos estranhos com sabor a paraíso. Recordo-me de outros sentires. Procuro uma mesa. Sento-me. Olho para este tom amarelo-torrado, soalheiro. O verde da relva convida-me a uma sesta, tapas e corpos sedutores. O sol que entra pelos ramos destas duas altas árvores levam-me para praias que há muito desejo. As luzes que as vestem são o deserto de reis em demanda de uma estrela brilhante. Saboreio esta mistura colorida de sabores e a folha-toalha branca promete-me companhia.
É no teu corpo que vou escrever.
Poiso os talheres, encosto-me na cadeira e fico, simplesmente, a observar para tudo isto. Um grupo de mulheres festeja os anos de uma delas, entre sorrisos e trocas de garotices. Adolescentes vão saboreando pratos de hambúrgueres. Homens, com ar de negócios, vão falando entre si. De novo, estas quase duas últimas semanas. A tristeza súbita. Pesada. Procuro sacudi-la como se de uma mosca se tratasse. Insiste em voar sobre o pão que se encontra na mesa. Volto a sacudi-la. Apercebo-me da necessidade que tenho, cada vez maior, de me adaptar ao que tenho. De me adaptar ao que vou tendo. Há quem lhe chame, simplesmente, felicidade. Como uma fórmula matemática, infalível. Há momentos em que tudo parece novo. Estranhamente novo.
…futuras-visões antes sonhos…
Delete…
I’m walking on sunshine… Nina Simone. Gosto desta ideia. Sorrio até. Imagino uma estrada feita do brilho do sol por onde se caminha de mão dada. Uma mão-dada-via. Está um dia bonito, hoje. Gosto do azul-jazz deste céu onde os deuses se distraem com jogos de cartas enquanto os seus filhos atiram o pião em chão feito de estrelas. Mergulho no café quente. Viagens exóticas a terras longínquas.
Faz-me bem este local. Traz-me cor. E é preciso procurar o que nos faz sorrir.
Quinta-feira, Setembro 24, 2009
De novo, pesada e subtil.
Stôr, já fiz a minha autobiografia para o separador. (Tinha-lhes dado, como exemplo, a de Eugénio de Andrade) Mas acho que não está bem. Posso ver? Entrega-me o texto, com vergonha. Começo a ler. Tinha-lhes pedido para a fazerem referindo algum caso particular da sua vida. Leio. Apercebo-me, logo, da presença forte e avassaladora da Morte. Um amigo. Um tio. Torna-se difícil, subitamente, a leitura daquele texto. Hoje não estava preparado para ser um super-ser-humano-professor. Como já não o ando há algum tempo. Só oiço os carros que vão passando pela estrada, os pássaros que vão chilreando. Não quero acabar de ler aquele texto. Então, stôr, eu bem dizia que não estava bem. No fim, a dedicatória deste texto aos pais.
Fico em silêncio. Sinto o sal a tomar conta dos meus olhos. Olho para a janela aberta onde corre uma brisa suave. A desculpa que preciso. Não falo nos segundos que parecem eternos. Não, o texto está muito bonito. Passa a limpo. Custa-me a falar. Atenção que tens alguns erros ortográficos. Muito bem.
Há uma tristeza enorme nos olhos daquela miúda que depositou a intimidade de momentos tão marcantes num professor que não conhece. Fico na sala, mais uns momentos. O mundo tornou-se escuro, de novo. Sento-me, abro o livro de Ponto e finjo para mim que vou escrever um sumário que já foi escrito.
De novo, pesada e subtil.
... poemar in vitro...
Navio Naufragado
Vinha dum mundo
Sonoro, nítido e denso.
E agora o mar o guarda no seu fundo
Silencioso e suspenso.
É um esqueleto branco o capitão,
Branco como as areias,
Tem duas conchas na mão
Tem algas em vez de veias
E uma medusa em vez de coração.
E em seu redor as grutas de mil cores
Tomam formas incertas quase ausentes
E a cor das águas toma a cor das flores
E os animais são mudos, transparentes.
E os corpos espalhados nas areias
Tremem à passagem das sereias,
As sereias leves de cabelos roxos
Que têm olhos vagos e ausentes
E verdes como os olhos dos videntes.
E a cor das águas toma a cor das flores
E os animais são mudos, transparentes.
E os corpos espalhados nas areias
Tremem à passagem das sereias,
As sereias leves de cabelos roxos
Que têm olhos vagos e ausentes
E verdes como os olhos dos videntes.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Quarta-feira, Setembro 23, 2009
... poemar em diálogo...
…poemar…
Todos podem compreendera necessidade que tenho de partir
esta manhã.
Não penso senão no barco
que me vai levar.
É preciso que parta depressa
branco, sobre o Tejo.
Por causa desta manhã,
por causa deste barco tenho vivido
todos estes dias
de vinho e do sol,
vejo-o brilhar,
branco,
eu
aqui sentado,
uma garrafa e um copo sobre a
mesa de mármore e ferro,
bebo
a um cais, a um sol, a um rio
ao branco navio
que me vai levar.
João Miguel Fernandes Jorge
Terça-feira, Setembro 22, 2009
…quase-the-end…
Vontade súbita. Levanto-me. Favoritos. Outro Palco. Abrir sessão. Introduzo o nome e a password. Painel. Definições. Abro o separador Básico. Eliminar blogue. Clico. Tem a certeza que quer eliminar este blogue? Fico a olhar, sem me aperceber porque cheguei ali. Como cheguei ali. Releio o texto que escolhi para apresentar este blog. Fico a olhar para o título do blog. Sim. Outro Palco. Um espaço. Um confessionário, quase. Acima de tudo, um amigo. Um ombro onde me encosto. Onde rio. Onde choro. O teatro da minha vida. A vida do meu teatro. A escrita. A fotografia. As paixões. A fuga. Constante, repetitiva. A partida. Sempre. A necessidade. A morte. Subtil e pesada. As festas. Quatro anos a procurar este espaço. A presença.
Tem a certeza que deseja eliminar este blog? Cancelar. E assusta-me este momento de hipnotismo.
Cancelar. Os amigos-ombro não se matam.
Segunda-feira, Setembro 21, 2009
Mundo-interruptor
Entro em casa. Ainda com a pasta nos ombros, ligo a aparelhagem. De novo o cd que me tem acompanhado nestes últimos dias. De vez em quando é assim. O mesmo, vezes sem conta. É como se não soubesse que o tinha, a última novidade. Coloco a pasta no chão, vou ao quarto e tiro o relógio para cima da mesa-de-cabeceira. Um peso diário. Não há barulho no meu prédio. Só o movimento, que parece longínquo, de carros e os falares de crianças na escola em frente se intromete neste silêncio. O quarto exala a penumbra em que o deixei. Olho para o pequeno sofá azul perto da cama. Sento-me. Descalço-me. Fico assim, de olhos fechados, a ouvir esta música. A desligar-me do mundo. A desligar-me do mundo. Gosto. Lembro-me do bolo de chocolate que trouxe. Água na boca. Levanto-me. É bom sentir o chão nos pés. Abro a geleira. Corto uma pequena fatia do bolo. Uma vela. Um número. Uma sombrinha de papel. Vermelha. Cada um ficou com uma. Ecoam sons de poucos a desejarem muito. Tanto. Volto à penumbra. Deixo-me embalar por esta lenta melodia. Olhos fechados. Um bolo que se vai desfazendo na boca.
Esquecer. Simplesmente. Esquecer.
Off.
Esquecer. Simplesmente. Esquecer.
Off.
Domingo, Setembro 20, 2009
Olhar-Suspiro
once i had a secret love / that lived within the heart of me / all too soon my secret love / became impatient to be free
Vejo-te entrar. Caminhas calmamente. Trazes nos olhos a vontade do silêncio. O teu corpo, esguio, acomoda-se no banco alto em frente ao balcão. O lento mover dos lábios deixa adivinhar um olá familiar. Abandonas o teu queixo sobre as tuas mãos. Lembro-te em corridas-arco-íris. Fixas o velho balcão, gasto. A bebida. Um copo baixo. O sal no bordo sabe a quentes beijos-goles.
so i told a friendly star / the way that dreamers often do / just how wonderful you are / and why i’m so in love with you
Rodas o copo de forma divertida enquanto pequenos brilhos se intrometem nas escuras sombras, que te olham de viés com ar reprovador.
it seems we stood and talked like this before / we looked at each other in the same way then, / but i can’t remember when or when. / the clothes you’re wearing are the clothes you wore. / the smile you are smiling you were smiling then,
Ficas imóvel. E é no teu cabelo-mar que me apercebo do quanto gostas de navegar naqueles braços feitos de madeira antiga. E é tão bonita a mudez do teu dançar.
some things that happen for the first time, / seem to be happening again / and so it seems that we have met before, / and laughed before, / and loved before, / but baby who knows where or when
Vejo-te entrar. Caminhas calmamente. Trazes nos olhos a vontade do silêncio. O teu corpo, esguio, acomoda-se no banco alto em frente ao balcão. O lento mover dos lábios deixa adivinhar um olá familiar. Abandonas o teu queixo sobre as tuas mãos. Lembro-te em corridas-arco-íris. Fixas o velho balcão, gasto. A bebida. Um copo baixo. O sal no bordo sabe a quentes beijos-goles.
so i told a friendly star / the way that dreamers often do / just how wonderful you are / and why i’m so in love with you
Rodas o copo de forma divertida enquanto pequenos brilhos se intrometem nas escuras sombras, que te olham de viés com ar reprovador.
it seems we stood and talked like this before / we looked at each other in the same way then, / but i can’t remember when or when. / the clothes you’re wearing are the clothes you wore. / the smile you are smiling you were smiling then,
Ficas imóvel. E é no teu cabelo-mar que me apercebo do quanto gostas de navegar naqueles braços feitos de madeira antiga. E é tão bonita a mudez do teu dançar.
some things that happen for the first time, / seem to be happening again / and so it seems that we have met before, / and laughed before, / and loved before, / but baby who knows where or when
É tão bonita a mudez do teu dançar.
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